segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Seu Elias às suas ordens



































Tudo o que acontece é natural -
inclusive o sobrenatural.
Mário Quintana



Havíamos nos mudado para o prédio há pouco mais de 6 meses.

A construção era bem antiga, a pintura apresentava grandes marcas de desgaste e o único elevador do local balançava e rangia na medida em que se alcançavam os andares mais altos. As escadas de emergência tinham um aspecto sombrio; as luzes de segurança há muito tinham queimado e aparentavam não receber nenhuma manutenção nas últimas décadas.
O apartamento ficava no sétimo andar, era bem amplo e arejado, porém ao cair da noite revestia-se de uma atmosfera sombria e melancólica. O silêncio proveniente do bosque que emoldurava a janela da sala parecia amplificar o crocitar de corujas e corvos, que habitavam as árvores mais próximas.

Em algumas conversas casuais com os porteiros, sempre vinham à tona histórias sobre um senhor que tinha se jogado da varanda da sala e que assombrava o condomínio, mas nunca demos muita atenção, por pensarmos ser um disparate daqueles que exercitam a criatividade no intuito de manter a sanidade mental num ambiente de trabalho tão monótono, como a portaria de um prédio antigo. Zico, o porteiro noturno, e também o mais falante, adorava puxar este tipo de conversa quando percebia que dispúnhamos de algum tempo livre para bater papo. Ele arregalava os olhos e falava com muita categoria que tinha orgulho de trabalhar num prédio habitado por almas penadas, e confidenciava que elas muitas vezes lhe faziam companhia em suas longas jornadas madrugada afora.

Naquela quinta-feira fatídica, Zefinha, nossa empregada, acordou indisposta, alegando não ter conseguido dormir por conta de uma noite permeada por pesadelos. Dizia ter sonhado com um senhor vestido de cinza, que sussurrava algumas frases confusas, pregando que uma maldição estava prestes a ocorrer.

Ao cair da tarde, estávamos reunidos em família na copa para um lanche da tarde como de costume, conversando, rindo e as crianças contavam as novidades da escola.

Zefinha participava ativamente da conversa, quando de repente colocou as mãos na têmpora, alegando uma leve tontura e disse ter pressentido algo de ruim. Seguimos sem dar muita atenção a ela, pois volta e meia ela sentia uns "piripaques" esquisitos.

Passados uns dez minutos, levantei os olhos e então vi passar de relance pela janela o vulto de um corpo, seguido de um forte estrondo e um ruído seco. Tudo ocorreu em questão de segundos, não tivemos tempo de processar o que havíamos acabado de presenciar,.
As mulheres da casa, então atônitas, ficaram tremendo e em estado de choque, sem saber que atitude tomar. Imediatamente o Falecido 1 (não colocarei o nome do meu primeiro marido, para preservar sua privacidade) tomou a frente da movimentação e, em meio a nosso alvoroço, foi até a área de serviço espiar o que de fato havia ocorrido. Da varanda, ele pôde observar que se tratava de uma mulher de meia-idade, tez clara e roupas florais. No cimento gelado da garagem do prédio agora jazia, desfalecida. Estatelada no chão, ela caíra de costas, com os braços perpendiculares ao tronco, como se estivesse tentando agarrar alguma coisa. Seu corpo, no entanto, permanecia intacto a olhos nus, sem vestígios de mancha de sangue. F1 não nos deixou olhar para o corpo, já prevendo que aquela imagem nos causaria um choque desnecessário. Ele desceu ao térreo para tentar dar alguma assistência à vítima, porém voltou com más notícias: a mulher na verdade havia se suicidado, e não escapou com vida da queda do décimo terceiro andar.

Mais tarde, enquanto assistíamos à televisão, Zefinha aparece na sala, esbaforida, com os olhos estatelados e as mãos suando, perguntando com uma voz trêmula se alguma de nós sabia de quem era um pé de sapato roxo, encontrado na varanda da área de serviço. Nós nos entreolhamos, com uma expressão de espanto e interrogação e respondemos que não sabíamos do que se tratava.

Em seguida, honrando a fama de bicho curioso que toda mulher carrega no seu âmago, corremos até a área de serviço para averiguar o "achado". Tratava-se de um sapato baixo, um tanto quanto démodé, com solado de borracha, daquele tipo que nossas tias-avós comprariam de olhos fechados. Foi aí que tivemos um estalo: se o bendito sapato não pertencia a nenhuma de nós... então ele só poderia ser da defunta ! Isto explicava o primeiro estrondo que ouvimos mais cedo: parte do parapeito da varanda havia se quebrado com o impacto do corpo na queda, e por conta disto o sapato caíra para dentro da nossa casa.Uma sensação inexplicável de terror e excitação nos tomou de imediato. E ninguém se atrevia a encostar no objeto macabro.

Interfonei para a portaria, e após explicar a situação ao Zico, pedi que ele subisse ao nosso apartamento para dali retirar o sapato e nos livrar daquela situação constrangedora. Em menos de dois minutos, a campainha tocou.

Zefinha abriu a porta e um senhor de barbas brancas, muito educado, cumprimentou-a e disse que a pedido do Zico havia vindo a nosso socorro para levar o sapato embora, pois conhecia a família da vítima e achava por bem devolver a eles o objeto da falecida. Ao despedir-se , este se apresentou como "seu Elias, às suas órdens", antigo morador do prédio e amigo dos vizinhos.

Naquela noite, Zefinha que estava apavorada, pediu para dormir no quarto de uma das meninas.

No dia seguinte, ao descer para ir à padaria , Zefinha encontrou Zico que lhe disse que andava muito atribulado, mas que de todo modo mais tarde iria ao nosso apartamento para pegar o sapato. Zefinha disse que não precisava, que o senhor Elias já havia feito o "serviço sujo", e que, passado susto, agora estava tudo bem.

Perplexo, Zico disse que não era possível, pois há muito aquele senhor não morava mais no prédio. Ela sorriu e perguntou se ele não havia estado por ali na ocasião somente de passagem, porém Zico arregalou os olhos e disse: "Não, Zefinha, a última vez que seu Elias apareceu por aqui foi numa manhã chuvosa de 14 de junho, como ontem. Mas isto foi há quarenta anos, quando ele pulou da janela".

Zefinha caiu estatelada no tapete vermelho que forrava a portaria!

Nana Pereira




Um comentário:

Aninha Leme disse...

SENSACIONAL!!!
adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
gentem, muito bom!! coitada da Zefinha!