sábado, 4 de julho de 2009

A melhor hora do dia


Quase 23h , estou cansada, com fome , mas estou muito feliz.
Vou explicar porque.
Hoje foi a comemoração de final de semestre da orquestra que faço parte.
A cada seis meses fazemos um Festival onde se apresentam corais, bandas, orquestras, e afins.
A apresentação começou às 7:45 ( com atraso, é claro!), mas estávamos no clube desde as 15:30h.
Correu tudo bem, alguns deslizes,uns tropeções, mas final feliz.
Nem sei porque estou falando de música, já que o assunto é totalmente diferente.
Ah! Lembrei!
Tivemos um intervalo antes de começar ao Festival e fiquei pensando em como estava frio e em como seria bom estar em casa tomando um capuccino quentinho.
Seria , definitivamente a melhor hora do dia.
Lembrei de quando minha caçula era pequena e não queria de jeito nenhum ir para o jardim de infância.
Todas as manhãs era a mesma coisa, uma choradeira sem fim, leite entornando na toalha da mesa, ela agarrando-se aos meus cabelos, aos meus brincos e uma vontade de chorar junto com ela.
Afinal, ela só tinha 3 anos de idade e era dona dos cachinhos mais lindos que já vi na vida..
Após várias semanas de soluços e corações partidos, tive uma idéia brilhante!
Sentei ao lado dela no sofá enquanto penteava seus cachinhos e perguntei:
- Você sabe qual a melhor hora do dia?
Ela olhou bem dentro dos meus olhos e respondeu:
- Não sei mamãe, qual é?
- É a hora de buscar você na escolinha, respondi.
Ela ficou quieta e eu continuei , por isso você tem que ir para a escolinha.
Se você ficar em casa, como teremos a melhor hora do dia?
Aquela hora em que você pula nos meus braços, engancha as pernas em torno da minha cintura e me conta tudo o que aprendeu, as musiquinhas que cantou, os desenhos que pintou e eu aperto você , encho suas bochechas de beijos e vamos para casa almoçar.
A partir daquele dia, ela parou de chorar e quando ameaçava um choramingo eu perguntava:
- Qual a melhor hora do dia?
Imediatamente ela gritava:
- Hora de "bucar"!

Nana Pereira

domingo, 28 de junho de 2009

O baile

"Pelo exemplo de Beatriz compreende-se facilmente como o amor feminino dura pouco, se não for conservado aceso pelo olhar e pelo tato do homem amado."
Dante Alighieri








Formavam um par perfeito, parecia que haviam sido talhados um para o outro.
Era incrível como suas almas e seus corpos se entendiam .
Ele costumava dizer- "Você é o meu número", e ela respondia - "Você é perfeitinho para mim"!
Os anos passaram e ele nunca a pediu em casamento.
Ele dizia que a amava.
Ela o amava.
Um dia , ela cansou de esperar, sabia que não viveria sem ele, mas também não mais conseguiria viver apenas de alguns momentos.
A vida seguiu seu curso e cada qual com seu destino.
Ela tornou-se uma reclusa, poucas vezes foi vista depois da separação. Passava horas escrevendo poemas, namorando as estrelas e imaginando como poderiam ter sido suas vidas.

Tantos anos sem vê-lo, tantas lembranças guardadas em uma caixa de madeira , e agora aquele convite para uma festa à fantasia.
Tomou coragem e resolveu comparecer. Iria disfarçada, não queria que a reconhecessem.
Há muito não era mais a mesma.
O sorriso que era sua marca registrada havia sumido de seu rosto, os olhos alegres e brilhantes tinham agora uma pequena luz triste.

Quando chegou ao Clube ficou espantada com a quantidade de luzes e com a decoração.
Parecia um castelo de contos de fadas, mulheres vestidas com roupas brilhantes, diáfanas, homens em trajes ora engraçados, ora saídos de um conto de Perrault.
Entrou sorrateiramente com sua fantasia azul ( uma mistura de fada e princesa árabe) , subiu a escadaria de mármore e encostou-se a uma pilastra de forma que ficasse observando sem ser vista.
O local estava cheio de pessoas alegres, as paredes azuis pareciam ter ouvidos, as grandes janelas brancas mantinham-se fechadas por ser uma noite fria de agosto.
Meia hora se passou quando de repente , uma figura masculina vestida de pirata lhe chamou a atenção.
Apesar do lenço na cabeça e do tapa olho ,não havia dúvidas, era ele.
Por um instante perdeu o fôlego, ficou sem ar e pensou que fosse desabar.Abriu uma das janelas para poder respirar e uma lufada de vento entrou agitando seu véu e levando seu perfume aos quatro cantos do salão.
Como se tivesse reconhecido o perfume, ele olhou por todo o recinto a procura daqueles olhos que brilhavam quando encontravam-se com os seus.
Foi até o terraço de onde podia-se ver um céu cheio de estrelas, aspirou o aroma da noite que misturava-se com a lembrança do perfume doce que ela usava.
Debruçou-se no balcão, fechou os olhos e a saudade invadiu toda sua alma . Tinha desperdiçado sua chance de ser feliz há muitos anos.
Abriu os olhos enevoados e vislumbrou um vulto de mulher envolto em véus azuis, dobrando a esquina.
Agora caía uma leve chuva , como se o céu chorasse a falta dela também.

Nana Pereira