domingo, 12 de outubro de 2008

Sinfonia inacabada





















Tenho que admitir que Deus me fez perfeita!
Não no sentido de só ter qualidades e não ter defeitos, mas no sentido de enxergar, ouvir, falar e andar.
Acordo todos os dias com uma sensação de felicidade e sou agradecida por ser saudável e estar viva, mas tenho que confessar que tenho um pequeno defeito de fabricação : - Um vazamento crônico!
Parece que tudo é motivo para uma torrente de lágrimas em minha vida.
Tudo é motivo para meus olhos transbordarem em lágrimas : se vou ao jardim molhar as plantas e descubro uma nova flor, se recebo um cartão junto de um vaso de flores em comemoração à entrada da primavera, se minha filha caçula vai ao shopping com o namorado e me liga perguntando que sabor de bolo eu prefiro que ela me traga.
Fico me perguntando se este vazamento é normal.
Quando estou na igreja e o coral canta a "Lacrimosa" de Mozart, é inevitável a enxurrada de lágrimas que invade meu rosto sem pedir permissão.
Ás vezes estou arrumando uma gaveta e lá encontro um bilhetinho de uma de minhas filhas , emociono-me de uma tal maneira, que fica até impossível terminar de ler sem que meu óculos fique todo embaçado e o meu nariz fique parecendo um narizinho de palhaço.
E o engraçado é que conforme o tempo passa, o tal vazamento piora, aparece com mais frequência e intensidade.
Ultimamente, durante os ensaios da orquestra e mesmo nos concertos, tenho passado maus bocados com esse vazamento impertinente.
Fizemos recentemente um concerto na Loja Maçônica de São Paulo e fui presenteada com a presença de duas amigas e da minha filha caçula ( ela sempre comparece quando pode).
Antes de começarmos a tocar uma das peças, olhei para a platéia e meus olhos encontraram-se com os de minha filha, ela sorriu e fez um desenho em forma de coração com as mãos.
Pronto!
Foi o suficiente para que meus olhos se enchessem de lágrimas !
O espantoso é que nem tem sido com Mozart ou Beethoven,pode ser com qualquer um que toque meu coração. Nos últimos tempos tem sido com Schubert, para ser mais exata, com a sinfonia inacabada.
Não sei que analogia meu cérebro (ou coração) faz com esta sinfonia e minha primogênita.
É alguma coisa inexplicável!
Talvez por ela nunca ter ido assistir um concerto meu ou talvez por ter casado e levado ao pé da letra o versículo do Gênesis que diz "Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher..."
Não há um concerto sequer em que durante as pausas da música, meus olhos não procurem insistentemente por uns olhos de "peixinhos de aquário"!
Quase não nos vemos, pouco sei de sua nova vida, a não ser pelo seu blog.
Entro como uma espiã para saber algumas novidades do seu dia a dia, se está feliz, cansada,resfriada , animada ou triste.
Às vezes descubro pequenas coisas que gostaria que compartilhássemos , coisas bobinhas como a compra de um novo vaso de flores, ou uma não tão boba como sua viagem de férias.
O incrível é que Schubert me faz sentir uma saudade imensa da "minha caçadora de joaninhas" com olhos de peixinhos de aquário, e nem sei explicar o porquê!
Acho que na realidade, nossa vida é como uma sinfonia inacabada, ela só termina quando fechamos os olhos e partimos rumo à eternidade.

Nana Pereira

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Manhã de primavera






































Que canto é este que invade meu quarto e atrapalha meu sono logo cedo?
O dia mal acabou de nascer e a cantoria já anda à solta.
Será o canário do vizinho triste que só usa camisas escuras e bate a porta do elevador?
Será o curió que fez seu ninho bem na torre da igreja, sem alvará ou contrato de aluguel?
Ou será que é um sabiá-laranjeira alardeando a chegada da primavera?
O jardim já está florido, a romanzeira não se aguenta de tanta flor. Um sanhaço passeia displicentemente na grade do jardim, observa os vasos de flores e vez ou outra sorve uns goles de água dos bebedouros.
O céu está bem azul, o sol brincalhão bafeja sobre os prédios. No cavalete, um quadro de cerejeiras inacabado, um tubo de tinta vazio, um pincel caído no chão.
O celular avisa que chegou mensagem. Sinto o coração bater mais rápido, sento na beira da cama , prendo os cabelos e vou em direção à cozinha.
Minha cachorrinha segue-me toda alegre esperando meu carinho e sua ração, é claro.
Preparo meu café, cantarolo um trecho da música que toquei ontem no concerto enquanto passo geléia nas torradas.
Sinto saudade da minha caçadora de joaninhas...

Nana Pereira