domingo, 2 de novembro de 2008

Pássaros cativos























Sei que não é politicamente correto, mas já tive pássaros em gaiolas!
Sim, mantive uma saíra ,três canários , um coleirinha , dois calafates e dois manons em cárcere privado.
Sinto até um pouco de vergonha em confessar meu delito, mas estou tentando redimir-me .
Acho que era uma forma de sentir-me mais próxima da natureza, já que moro em apartamento e rodeada de prédios.
Mas, nem sempre foi assim, na infância morávamos em casa com quintal, pomar e jardim.
As cercas eram vivas, as borboletas e os pássaros estavam sempre rondando o quintal.
Durante as tardes de verão, sentava-me à sombra de um pé de tangerina, deliciava-me com a fruta enquanto os pássaros faziam folia nas árvores.
Hibiscos e lantanas eram flores comuns para mim.
Mas, voltando aos pássaros, contarei a história de cada um deles e espero que seja absolvida , ou que no mínimo minha pena seja atenuada.
O primeiro pássaro que mantive em cativeiro foi uma saíra. Para quem não conhece, é um pássaro lindo, colorido, não canta e é muito arisco.Acho que devo dizer que é esperto também, pois na primeira oportunidade que teve, fugiu enquanto eu trocava a água do seu bebedouro. Nem preciso dizer que fiquei arrasada com sua fuga.
Tive um coleirinha que cantava que era uma beleza! Lembro-me que numa de nossas férias de dezembro, deixamo-lo na casa de um conhecido e quando voltamos o pássaro havia sumido. Até hoje não sabemos o paradeiro dele. Tenho a impressão de que foi vendido pelo conhecido em questão.
Algum tempo depois, acompanhando uma amiga a uma loja de aves, fiquei encantada por um casal de calafates. Os calafates são pássaros coloridos e ativos , não cantam, mas tem um piadinho bonitinho.
Resolvi comprá-los! O vendedor disse que só poderia vender um porque o outro era cego de um olho.
Fiquei consternada com a sorte do pobrezinho e disse ao homem:
_ Mas eu quero os dois!
Ele olhou para mim com ar incrédulo e disse:
_ Bem, nesse caso, você compra um e o outro (o ceguinho) vai de brinde.
Dei-lhes o nome de Stevie e Sting. Nem sei se eram dois machos ou um casal, mas , Resolvi que o que não enxergava de um olho deveria chamar-se Stevie.
Sting foi o primeiro a morrer e alguns meses depois Stevie também partiu!
A esta altura, já estava sem coragem de ter novo pássaro em casa.
Passei uns bons anos sem querer ter pássaros !
Até que um dia.....
O primeiro canário que tive, era um tanto quanto esquisito : tinha uns ataques e caía do poleiro como se tivesse tido um ataque fulminante e partisse desta para melhor.Como eu tenho pavor de pegar em bicho morto, esperava minha empregada chegar para dar início ao funeral e com espanto via o "falecido" novamente no poleiro.Acho que ele teve uns cinco ataques desses e um dia morreu de verdade.
Passei anos sem querer saber de pássaros novamente, até que um dia ganhei de presente de uma amiga um canário amarelo.
Este foi o primeiro pássaro que dei nome. Batizei-o de Wófel.
ele era novinho e conforme orientação da minha amiga, dei-lhe toda atenção e cuidados.
Comprei uma gaiola gigante, vários bebedouros, banheira para banhos diários, alpiste com vitaminas, jiló, folhas de almeirão e sementes de pimentão.
O tempo passou e o dito cujo não cantava, só piava. Até pensei que fosse mudo!
Comprei um desses pássaros com pilha e pendurei perto da gaiola. Quem sabe ele não precisava de incentivo?
Numa das visitas de meu pai, contei-lhe meu infortúnio e ele (velho conhecedor de pássaros) disse-me que meu canário não cantaria nunca, era uma fêmea.
Consolei-me com a situação, mas mantive seu nome de Wófel. Há um ano que o chamávamos assim , não tive coragem de mudar seu nome. E se ele (a) tivesse uma crise de identidade?
Um dia, numa manhã de inverno, perto do dia dos namorados, Wófel amanheceu morto.
Fiquei tão triste, que no dia dos namorados, minha filha deu-me outro canário.
Desta vez, ela certificou-se de que era macho e que cantaria!
Wally era verde! (acho que tenho uma queda por nomes que comecem com W)
Nunca havia visto um canário verde, sempre achei que canários fossem amarelos, mas Wally era verde.
Um belo dia, meu pássaro amanheceu cantando. Fui despertada pelo seu canto!
Que coisa mais linda!
Comprei-lhe nova gaiola , daquelas com tripé. Parecia um castelo, era toda branca. Wally ganhou um lugar de destaque e cantava boa parte do dia.
Até que começou a apresentar um comportamento estranho: passou a cantar de madrugada. Parecia um louco, acordando toda a família e quiça os vizinhos.
Pensei que talvez fosse falta de uma namorada. Nunca saberei, pois um belo dia Wally foi para o céu dos passarinhos também.
Dois anos depois da morte do finado Wally, estava em uma loja comprando peixinhos para o aquário, quando vi um casalzinho de manons. Não cantavam, mas eram tão bonitinhos e simpáticos que não resisti e os trouxe comigo.
Batizei-os de Tito e Meiga!
Comprei até um balancinho azul para alegrar suas vidas. Os dois disputavam o balanço o dia inteiro, cheguei a pensar em comprar mais um balancinho para evitar discórdia entre o casal.
O chão da área de serviço vivia cheio de alpiste e tudo parecia que estava indo muito bem até que uma manhã Tito amanheceu morto, assim sem mais nem menos.Dois dias depois a Meiga foi ao encontro do seu par.
Acho que morreu de saudade, como esses casais de velhinhos que quando um falece o outro não aguenta de tanta nostalgia e vai logo em seguida.
Fui tomada de uma tristeza medonha, olhava a gaiola vazia e não acreditava !
Resolvi então, pintar a gaiola , enfeitá-la com flores e pássaros artificiais e colocar para enfeitar o jardim.

Nana Pereira

sábado, 1 de novembro de 2008

Ensinando com amor


























Minha paixão por ensinar vem desde que eu era bem menina!
Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse , eu logo respondia:
- Quero ser escritora e professora!
Acho que naquele tempo, quase toda menina queria ser professora , e tão logo terminei o antigo ginásio, fiz uma espécie de vestibular para entrar na "Escola Normal Sara kubitschek ".
Nunca entendi porque davam o nome de "Escola Normal", ficava pensando se as outras escolas eram anormais!
No último ano do curso, as escolas estaduais do Rio de Janeiro estavam com carência de professores e as melhores alunas de magistério das escolas Sara kubitschek e Carmela Dutra, foram chamadas como estagiárias.
Foi assim que aos 17 anos ganhei o título de professora.
A escola era uma escola modelo, tudo era muito limpo, a diretora era temida por ser extremamente exigente, costumavam dizer que quando ela adentrava o portão da escola , todos tremiam.
Fui muito bem recebida e não tremi, tenho que confessar!
Foi empatia à primeira vista!
Minha classe era composta por crianças de 6 e 7 anos, a maioria com dificuldade de aprendizado.
Havia um regulamento a seguir e toda uma didática imposta pelo MEC.
Eram 25 crianças a serem alfabetizadas .
Nas primeiras semanas segui à risca o plano de aula que a mim fora designado, mas com o passar das semanas, fui acrescentando uns toques pessoais às aulas.
Minhas crianças sentavam-se no meu colo, ficávamos de mãos dadas, nos acariciávamos e algumas alunas até penteavam os meus longos cabelos lisos (o que acarretou em uma invasão de piolhos na minha cabeça).
Descobri que havia uma vitrolinha e discos de histórias e cantigas de roda na sala de material didático, então , pelo menos umas 2 vezes por semana ouvíamos histórias e acreditem, dançávamos na sala de aula.
Encostávamos as mesas e cadeiras na parede e a sala virava um salão de dança.
Os meninos dançavam com meninos e as meninas com as meninas e todos, sem exceção dançavam comigo.
Eram tardes extremamente alegres e no final, recolocávamos as mesas no lugar para não sermos descobertos.
As crianças adoravam ouvir as histórias , tínhamos a nossa história predileta que era "A formiguinha e a neve". Perdi a conta de quantas vezes a ouvimos e invariavelmente chorávamos na parte em que Deus mandava o sol para descongelar a formiguinha e a salvava da morte. Nesse momento nos abraçávamos com os olhos cheios de lágrimas e sentíamos mais próximos do criador.
Mas, era muito difícil para mim ficar presa dentro da sala de aula, foi então que pedi autorização à diretora para criar umas aulas de recreação ao ar livre.
A escola tinha um grande espaço de terra com plantas e árvores, que não era utilizado a não ser na época das festas juninas. Apresentei meu projeto e no dia seguinte ele já foi aprovado.
Passamos a descer por uma hora para passear , correr, fazer exercícios , descobrir insetos e brincar.Cada aluno trazia um short dentro da mochila e trocavam de roupa no banheiro.
O triste era que éramos a única turma com essa atividade, percebia os olhares de admiraçõa e porque não dizer de inveja das outras crianças.
Criamos uma mini biblioteca dentro da sala de aula e passávamos boa parte do tempo lendo e folheando os livros.
Viajávamos a cada história e depois as crianças desenhavam e davam sua interpretação para a história.
Em setembro, resolvi fazer uma exposição dentro da sala de aula sobre as quatro estações.
Dividi a turma em quatro grupos e cada um deu sua contribuição em desenhos, colagens e montagens.
Enviamos convites para as outras turmas virem nos visitar.
Acreditem, foi um sucesso! As crianças , cada qual com seu assunto, explicavam as singularidades de cada estação do ano.
Ainda lembro do orgulho que senti de cada um deles!
Recebi um cartão de agradecimento pelo belo trabalho da direção da escola e foi como se tivesse ganho um prêmio Nobel!

Hoje, tantos anos depois fico me perguntando como estará cada uma dessas crianças.
Sei que fiz a diferença na vida delas e agradeço a Deus por ter essa alma de criança livre e sonhadora até hoje.

Nana Pereira