sábado, 1 de novembro de 2008

Ensinando com amor


























Minha paixão por ensinar vem desde que eu era bem menina!
Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse , eu logo respondia:
- Quero ser escritora e professora!
Acho que naquele tempo, quase toda menina queria ser professora , e tão logo terminei o antigo ginásio, fiz uma espécie de vestibular para entrar na "Escola Normal Sara kubitschek ".
Nunca entendi porque davam o nome de "Escola Normal", ficava pensando se as outras escolas eram anormais!
No último ano do curso, as escolas estaduais do Rio de Janeiro estavam com carência de professores e as melhores alunas de magistério das escolas Sara kubitschek e Carmela Dutra, foram chamadas como estagiárias.
Foi assim que aos 17 anos ganhei o título de professora.
A escola era uma escola modelo, tudo era muito limpo, a diretora era temida por ser extremamente exigente, costumavam dizer que quando ela adentrava o portão da escola , todos tremiam.
Fui muito bem recebida e não tremi, tenho que confessar!
Foi empatia à primeira vista!
Minha classe era composta por crianças de 6 e 7 anos, a maioria com dificuldade de aprendizado.
Havia um regulamento a seguir e toda uma didática imposta pelo MEC.
Eram 25 crianças a serem alfabetizadas .
Nas primeiras semanas segui à risca o plano de aula que a mim fora designado, mas com o passar das semanas, fui acrescentando uns toques pessoais às aulas.
Minhas crianças sentavam-se no meu colo, ficávamos de mãos dadas, nos acariciávamos e algumas alunas até penteavam os meus longos cabelos lisos (o que acarretou em uma invasão de piolhos na minha cabeça).
Descobri que havia uma vitrolinha e discos de histórias e cantigas de roda na sala de material didático, então , pelo menos umas 2 vezes por semana ouvíamos histórias e acreditem, dançávamos na sala de aula.
Encostávamos as mesas e cadeiras na parede e a sala virava um salão de dança.
Os meninos dançavam com meninos e as meninas com as meninas e todos, sem exceção dançavam comigo.
Eram tardes extremamente alegres e no final, recolocávamos as mesas no lugar para não sermos descobertos.
As crianças adoravam ouvir as histórias , tínhamos a nossa história predileta que era "A formiguinha e a neve". Perdi a conta de quantas vezes a ouvimos e invariavelmente chorávamos na parte em que Deus mandava o sol para descongelar a formiguinha e a salvava da morte. Nesse momento nos abraçávamos com os olhos cheios de lágrimas e sentíamos mais próximos do criador.
Mas, era muito difícil para mim ficar presa dentro da sala de aula, foi então que pedi autorização à diretora para criar umas aulas de recreação ao ar livre.
A escola tinha um grande espaço de terra com plantas e árvores, que não era utilizado a não ser na época das festas juninas. Apresentei meu projeto e no dia seguinte ele já foi aprovado.
Passamos a descer por uma hora para passear , correr, fazer exercícios , descobrir insetos e brincar.Cada aluno trazia um short dentro da mochila e trocavam de roupa no banheiro.
O triste era que éramos a única turma com essa atividade, percebia os olhares de admiraçõa e porque não dizer de inveja das outras crianças.
Criamos uma mini biblioteca dentro da sala de aula e passávamos boa parte do tempo lendo e folheando os livros.
Viajávamos a cada história e depois as crianças desenhavam e davam sua interpretação para a história.
Em setembro, resolvi fazer uma exposição dentro da sala de aula sobre as quatro estações.
Dividi a turma em quatro grupos e cada um deu sua contribuição em desenhos, colagens e montagens.
Enviamos convites para as outras turmas virem nos visitar.
Acreditem, foi um sucesso! As crianças , cada qual com seu assunto, explicavam as singularidades de cada estação do ano.
Ainda lembro do orgulho que senti de cada um deles!
Recebi um cartão de agradecimento pelo belo trabalho da direção da escola e foi como se tivesse ganho um prêmio Nobel!

Hoje, tantos anos depois fico me perguntando como estará cada uma dessas crianças.
Sei que fiz a diferença na vida delas e agradeço a Deus por ter essa alma de criança livre e sonhadora até hoje.

Nana Pereira

domingo, 12 de outubro de 2008

Sinfonia inacabada





















Tenho que admitir que Deus me fez perfeita!
Não no sentido de só ter qualidades e não ter defeitos, mas no sentido de enxergar, ouvir, falar e andar.
Acordo todos os dias com uma sensação de felicidade e sou agradecida por ser saudável e estar viva, mas tenho que confessar que tenho um pequeno defeito de fabricação : - Um vazamento crônico!
Parece que tudo é motivo para uma torrente de lágrimas em minha vida.
Tudo é motivo para meus olhos transbordarem em lágrimas : se vou ao jardim molhar as plantas e descubro uma nova flor, se recebo um cartão junto de um vaso de flores em comemoração à entrada da primavera, se minha filha caçula vai ao shopping com o namorado e me liga perguntando que sabor de bolo eu prefiro que ela me traga.
Fico me perguntando se este vazamento é normal.
Quando estou na igreja e o coral canta a "Lacrimosa" de Mozart, é inevitável a enxurrada de lágrimas que invade meu rosto sem pedir permissão.
Ás vezes estou arrumando uma gaveta e lá encontro um bilhetinho de uma de minhas filhas , emociono-me de uma tal maneira, que fica até impossível terminar de ler sem que meu óculos fique todo embaçado e o meu nariz fique parecendo um narizinho de palhaço.
E o engraçado é que conforme o tempo passa, o tal vazamento piora, aparece com mais frequência e intensidade.
Ultimamente, durante os ensaios da orquestra e mesmo nos concertos, tenho passado maus bocados com esse vazamento impertinente.
Fizemos recentemente um concerto na Loja Maçônica de São Paulo e fui presenteada com a presença de duas amigas e da minha filha caçula ( ela sempre comparece quando pode).
Antes de começarmos a tocar uma das peças, olhei para a platéia e meus olhos encontraram-se com os de minha filha, ela sorriu e fez um desenho em forma de coração com as mãos.
Pronto!
Foi o suficiente para que meus olhos se enchessem de lágrimas !
O espantoso é que nem tem sido com Mozart ou Beethoven,pode ser com qualquer um que toque meu coração. Nos últimos tempos tem sido com Schubert, para ser mais exata, com a sinfonia inacabada.
Não sei que analogia meu cérebro (ou coração) faz com esta sinfonia e minha primogênita.
É alguma coisa inexplicável!
Talvez por ela nunca ter ido assistir um concerto meu ou talvez por ter casado e levado ao pé da letra o versículo do Gênesis que diz "Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher..."
Não há um concerto sequer em que durante as pausas da música, meus olhos não procurem insistentemente por uns olhos de "peixinhos de aquário"!
Quase não nos vemos, pouco sei de sua nova vida, a não ser pelo seu blog.
Entro como uma espiã para saber algumas novidades do seu dia a dia, se está feliz, cansada,resfriada , animada ou triste.
Às vezes descubro pequenas coisas que gostaria que compartilhássemos , coisas bobinhas como a compra de um novo vaso de flores, ou uma não tão boba como sua viagem de férias.
O incrível é que Schubert me faz sentir uma saudade imensa da "minha caçadora de joaninhas" com olhos de peixinhos de aquário, e nem sei explicar o porquê!
Acho que na realidade, nossa vida é como uma sinfonia inacabada, ela só termina quando fechamos os olhos e partimos rumo à eternidade.

Nana Pereira