
Minha paixão por ensinar vem desde que eu era bem menina!
Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse , eu logo respondia:
- Quero ser escritora e professora!
Acho que naquele tempo, quase toda menina queria ser professora , e tão logo terminei o antigo ginásio, fiz uma espécie de vestibular para entrar na "Escola Normal Sara kubitschek ".
Nunca entendi porque davam o nome de "Escola Normal", ficava pensando se as outras escolas eram anormais!
No último ano do curso, as escolas estaduais do Rio de Janeiro estavam com carência de professores e as melhores alunas de magistério das escolas Sara kubitschek e Carmela Dutra, foram chamadas como estagiárias.
Foi assim que aos 17 anos ganhei o título de professora.
A escola era uma escola modelo, tudo era muito limpo, a diretora era temida por ser extremamente exigente, costumavam dizer que quando ela adentrava o portão da escola , todos tremiam.
Fui muito bem recebida e não tremi, tenho que confessar!
Foi empatia à primeira vista!
Minha classe era composta por crianças de 6 e 7 anos, a maioria com dificuldade de aprendizado.
Havia um regulamento a seguir e toda uma didática imposta pelo MEC.
Eram 25 crianças a serem alfabetizadas .
Nas primeiras semanas segui à risca o plano de aula que a mim fora designado, mas com o passar das semanas, fui acrescentando uns toques pessoais às aulas.
Minhas crianças sentavam-se no meu colo, ficávamos de mãos dadas, nos acariciávamos e algumas alunas até penteavam os meus longos cabelos lisos (o que acarretou em uma invasão de piolhos na minha cabeça).
Descobri que havia uma vitrolinha e discos de histórias e cantigas de roda na sala de material didático, então , pelo menos umas 2 vezes por semana ouvíamos histórias e acreditem, dançávamos na sala de aula.
Encostávamos as mesas e cadeiras na parede e a sala virava um salão de dança.
Os meninos dançavam com meninos e as meninas com as meninas e todos, sem exceção dançavam comigo.
Eram tardes extremamente alegres e no final, recolocávamos as mesas no lugar para não sermos descobertos.
As crianças adoravam ouvir as histórias , tínhamos a nossa história predileta que era "A formiguinha e a neve". Perdi a conta de quantas vezes a ouvimos e invariavelmente chorávamos na parte em que Deus mandava o sol para descongelar a formiguinha e a salvava da morte. Nesse momento nos abraçávamos com os olhos cheios de lágrimas e sentíamos mais próximos do criador.
Mas, era muito difícil para mim ficar presa dentro da sala de aula, foi então que pedi autorização à diretora para criar umas aulas de recreação ao ar livre.
A escola tinha um grande espaço de terra com plantas e árvores, que não era utilizado a não ser na época das festas juninas. Apresentei meu projeto e no dia seguinte ele já foi aprovado.
Passamos a descer por uma hora para passear , correr, fazer exercícios , descobrir insetos e brincar.Cada aluno trazia um short dentro da mochila e trocavam de roupa no banheiro.
O triste era que éramos a única turma com essa atividade, percebia os olhares de admiraçõa e porque não dizer de inveja das outras crianças.
Criamos uma mini biblioteca dentro da sala de aula e passávamos boa parte do tempo lendo e folheando os livros.
Viajávamos a cada história e depois as crianças desenhavam e davam sua interpretação para a história.
Em setembro, resolvi fazer uma exposição dentro da sala de aula sobre as quatro estações.
Dividi a turma em quatro grupos e cada um deu sua contribuição em desenhos, colagens e montagens.
Enviamos convites para as outras turmas virem nos visitar.
Acreditem, foi um sucesso! As crianças , cada qual com seu assunto, explicavam as singularidades de cada estação do ano.
Ainda lembro do orgulho que senti de cada um deles!
Recebi um cartão de agradecimento pelo belo trabalho da direção da escola e foi como se tivesse ganho um prêmio Nobel!
Hoje, tantos anos depois fico me perguntando como estará cada uma dessas crianças.
Sei que fiz a diferença na vida delas e agradeço a Deus por ter essa alma de criança livre e sonhadora até hoje.
Nana Pereira

